Danilo
Blanco e a Fina Poesia da Matéria
Sobre os circuitos da matéria:
Arte relacional, técnica e curadoria como gesto
O trabalho de Danilo Blanco articula múltiplas camadas da criação
artística contemporânea, fundindo procedimentos matéricos com dimensões
conceituais e relacionais. Nesta exposição, o artista apresenta uma rara
amostra das diversas técnicas que desenvolveu e dos caminhos que percorreu ao
longo de sua trajetória profissional.
Do trabalho de marchetaria sólida com madeiras e ossos à marchetaria de
colagem e incrustação com finas lâminas de madeira — naturais ou cromatizadas
—, papéis, plásticos, impressos e materiais reaproveitados, suas obras revelam
uma fatura precisa e luminosa.
Blanco busca sempre a melhor vocação para cada peça: ora se apresenta
como matéria que convida ao toque; ora cintila, protegida por vidro ou
acrílico, para puro deleite visual. Por vezes, é familiar e contida; por vezes,
inovadora e surpreendente — como no jogo de dominó gigante.
Artista de reconhecida qualidade, Blanco compartilha conhecimentos e
oportunidades, praticando ativamente a arte relacional, conceito formulado por
Nicolas Bourriaud, em que o trabalho coletivo constrói não apenas afetos, mas
também caminhos de realização pessoal.
É o caso dos delicados e instigantes trabalhos em arame — casinhas com
escadas e cadeirinhas — produzidos por artesãos anônimos, muitas vezes
moradores de rua, a partir do agenciamento que o artista propõe e comissiona,
utilizando croquis e modelos de sua autoria. Seu
trabalho opera como nó de articulação entre o fazer e o pensar,
Entre a
obra e a rede de relações que ela aciona. Ao
empregar, com maestria, técnicas diversas como marchetaria, colagem e
assemblage, Blanco elabora composições que dialogam com o pensamento
pós-estruturalista francês, no qual a obra é compreendida como constelação de
sentidos em constante fluxo e reconfiguração.
O gesto de apropriar-se de materiais previamente elaborados e
reinscrevê-los em novos contextos plásticos e simbólicos aproxima sua produção
de referências contemporâneas que operam com a ideia de obra como sistema
aberto. Sua prática insere-se em uma linhagem que poderia ser chamada de
“estética relacional de construção”, em que o fazer artístico mobiliza técnicas
tradicionais e elementos industrializados, agregando fragmentos do mundo
concreto à tessitura do objeto artístico.
Mais do que um artista de ateliê, Blanco atua também como mediador
cultural, curador de sentidos e ativador de relações — especialmente nas
oficinas que oferece em projetos de arte-educação e inclusão social. Essa
dimensão colaborativa e socialmente engajada aproxima-o de artistas como Lygia
Clark, em sua fase sensorial e participativa, ou Rirkrit Tiravanija, com sua
“estética da convivência”.
Blanco, no entanto, distingue-se por fazer coexistir com fluidez o rigor
técnico da marchetaria e a liberdade conceitual da arte atual, transgredindo
dicotomias entre arte e artesanato, projeto e improviso, autoria e
coletividade.
Essa posição de coexistência garante uma estética apurada e uma fatura
impecável às suas obras, sem prejuízo de densidade conceitual nem ruptura da
cadeia de compromissos éticos pressupostos em trabalhos complexos ou
colaborativos. Corpo — Matéria — Madeira
Ao retornar à marchetaria — arte ancestral da madeira e do encaixe —
Blanco não apenas atualiza uma técnica, mas reativa memórias do fazer manual,
da persistência dos ofícios e da escuta da matéria. O que é matérico torna-se,
aqui, mais que suporte: é presença viva, linguagem e resistência. Em cada
junção de lâminas, há também um pensamento que se dá a ver — ou, talvez, a
tocar.
Sua obra convoca, também do espectador, um corpo inteiro, sensível e
operante; um corpo que aprende pela fricção com a matéria e age em sinergia com
os materiais e seus tempos. Que transforma o gesto técnico em gesto ético e estético, e a madeira em
matéria de poesia.Carlos Zibel e Antonio CarlosCavalcanti Filho - curadores
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